sábado, 6 de março de 2010

Poesia de João Meirelles Filho

Poisio apopular

Ou desescrevos de um escravo das letras

poemas de 1983 a 2004


À Yara, mãe d’água
Para comemorar meus cinquentanos

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“mUDANDO a iDADE
sE mUDA a aVENTURA”
Tirant Lo Blanc (Joanot Martorell)












Com todos os vícios e achas quer novos e velhos tal qual os possuías;
por preço commodo, e de robusta construção, sabe carpir, prever o tempo,
imitar passarinhos, declamar e outros feitiços domésticos.
Quem se candidatar dirija-se a este poisio.



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I. Comitiva


Ode ao Sorveteiro

Ao Sérgio Amad Costa

Coragem, sorveteiro!
Quantas coragens, sorveteiro!
Empurres manhãs sem luz,
afastes teu cavalo-de-Tróia
n'areia movediça.

Contra o vento anônimo,
portas-de-correr,
pernas-de-jiçara, moçoilas
pés-de-moleque,
contra os beribéris piratas.

Contra os roedores-de-amendoim,
contra os libadores-de-caipirinha,
contra as hetairas-beatas semi-desnudas,
contra os sommeliers-do-côco-gelado,
contra os taumaturgos-de-redes-cearenses,
contra os faquires-de-sanduíche-natural,
contra os sambistas-de-biju-cica,
contra os latinistas-de-jornais,
contra os reformistas-do-algodão-doce,
contra os sincronizadores-de-cocadas.

No jirau do mundo há surdos lagares.

Coragem, sorveteiro, coragem!
Onde estarás quando o dia em glória?
Onde os aviões buzinam teus epitalâmios,
faixas coloridas "sorvetamo-nos"!

Onde a areia adjudica?
Quando regressares a casa, sorveteiro,
o que será de teu companheiro blindado?
Tua urutinga e bijupirá?
De teu cavalo-de-batalha? Teu hemisfério?

O que será do creme-de-vento?
Quem comprará teu leite-inglês?
Tua floresta-negra, teus dissabores?

E o que não for vendido? Derretido pelo efeito-estufa?
O que for mutilado em campo aberto?
O que sorvestes ao medo das refregas?
O que o vento corroe em sezões?
O que o suor não devolver?
Quem te restituirá?

Porque teus filhos não passam a sorvete
Nem tua mulher está na oficina do fogão-tanque
pelo teu bom sorvete!

Porque teus filhos não pertencem à confraria
dos artesãos do grão-sorvete-polar.
Porque não há Nossa Senhora
padroeira dos sorveteiros.

Porque tua tapera está aberta aos grandes
Lodos infestos e ursos de casaco branco.
Porque as marmotas gigantes e os cachalotes-sem-bússola
virão algum dia abespinhar a multidão.

Ah, como é certo que virão!
Teus sapatos-ampulhetas...

Porque a tua casa é a última
antes que o mangue devore teus enigmas.
Porque não há lugar ao mundo
para tantos caranguejos e videntes.

Porque as tundras recolhem-se
ao temor do gelo falante.
Porque onde carapanãs não pertubam,
não há vida inteligente!

Coragem, sorveteiro, coragem!
Onde debandaram os dez mil?
Tu és, antes de tudo, “um forte”...

Não há temer as sentinelas dos castelos de areia,
os arrivistas da quinta-coluna,
os fracos da vigésima-quinta-hora.
Não há temer!

Os caravançarás estirados ao sol,
as mantas de carne feminina secando sobre as esteiras-tatame (debalde, mira-as e cega-te)
os peregrinos, idólatras, e teus bezerros dourados.
Não há temer!

As matilhas de farejadores,
o arrastão dos ricos mais ricos que os ricos,
os primeiros garimpeiros de lantejoulas...

Proteja-te com teu cavalo-de-Tróia!
É a tua foice contra a luz, mãe d’água,
contra o espectro das estrelas marinhas,
contra as sereias bivalves, iaras...

Sorveteiro!
Leva-o para o-sempre-avante,
onde alcançarás teus iguais,
onde a tonsura coroa o vento.

Cuidas da mirra incandescente,
dos ovos envoltos em cinza,
das grandes damas de honra!
O aguapé-sal!

Sorveteiro!
Sigas o rastro de teu carro,
a indelével areia fabricada na conquista,
o teu ábaco a recontar
as ambrosias que amanham teu samburá.

Sorveteiro!
Fujas do alcagueta,
o teu mapa de areia e hieroglifos.
Protejas bens, teus os sonhos,
o destino para o quando, alcançá-lo
(faltam-te sonhos para cobrir grandes territórios).

Onde a blindagem há de suportar,
onde as tâmaras rellenas,
onde os figos-de-cristal,
onde o feijão-com-arroz,
onde o grande-filé-de-bife-de-boi,
onde os dourados pastéis.

Onde o retrato da família,
onde o longo poema,
onde o santinho navegador,
onde o salvo conduto às areias deste mundéu...

Sorveteiros, unidos cruzarão os Andes,
unidos colherão o cânon mais puro,
unidos alimentarão as crianças, seguirão a perema
(com estórias bem contadas e açaí e mel).

Unidos manterão as praias limpas,
unidos desfilarão teus peixes-de-curral,
unidos teus filhos serão filhos-de-sorveteiro
(sem que a cabeça baixe).

Unidos derretarão o cansaço, a bolsa de valores,
o humor vago, as dores do parto, os consultores internacionais,
as dores do fome.

Unidos expulsarão das praias os pangolins,
os corpos ardentes, os homens de cupim e granito.
Unidos impedirão a feiura exposta, as barbelas,
a la grande as barrigas, as pelancas e árticos alabastros.

Lastrigões histriônicos roucos de premonições.
Covos.

Para que as aliás excêntricas, hiponefertites,
gazelas nas pontas dos pés, capitulam.
Cabritas eufóricas, acéfalos resplendores?
Contra as fúrias, as grous, as egoístas, as nereides-nenúfares? Penelopes, malazartes, perequês...

Fora aos presuntos bezuntados, as mexas madeixas,
aos paquidermes de raça, os ubres murchos.
Xô tangerinos, sarabandistas, xô! Peões-de-culatra!
Xô berrantes roucos e sons-de-automóveis brucutus.

Como nada este celacanto! “Olha o churrasquinho fresquinho e
Temperaaadooo!”

A praia será das crianças, manatis
e sorveteiros... tuas famílias virão para o bom domingo

Pelo teu sorvete hás-de prosseguir a ordem necessária.
Pelo teu sorvete hás-de espalhar os glaciares azuis.

E cumulados de glória, pelas praias limpas de Iperoig, nada se escreve, os pastores não mais nos alcançam nas praias,
onde desalmam hordas cantilenas, os sambaquis da maré cheia.

Beneditos sejam os sorveteiros!

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Orações

À Mariângela, obra-prima

Oração às criancinhas pedindo-me balas

Orai, Senhor, pelas criancinhas que fazem versos das folhas de jornal. Olhai, Senhor, pelas menorzinhas, que empanturram nossos vidros de corais e mãozinhas engorduradas de balas e suor. Orações solícitas. Dedos sujos de chãos, dai-lhes mais uma verbo até que possamos lhes encontrar uma noite que lhes acalente m pela palavra. Dai-nos, Senhor, a fé dos anjos, admirá-las como tuas crianças, lambuzadas de amor e desembainhadas neste ponto ilúcido da História, por coincidência, humana e irrefletida.


Oração ao cego e à caixa de sapatos na mão

Que caiam muitas moedas e apitos de plásticos, e línguas-de-sogra, e serelepes, e máquinas barulhentas, zum-zuns, reco-recos, lanternas-mágicas e saquinhos de jogar; e sininhos, muitos sininhos, sincerros, balangadãs, para que possamos ouví-los bem, para que seus sopros nos encontrem a cada badalada. Tornemo-los tarefeiros, Senhor, recriemos as profissões de copista e de semaneiros para dar aos cegos e às suas caixas de sapato um melhor apito do que aquelas que hoje lhes deixei. Principalmente, aos cegos cantores, aos cegos trovadores, cegos-arco-íris, aos cegos pregadores, aos cegos realejos, cegos-videntes, dai-lhes o calor dos dias; que caia a chuva quente das tardes e, que, não os deixem passar a escuridão da noite apõs o tumulto das gentes pedestrais. Não os deixem varrer as pontes e os viadutos, e recolher-se às filas dos fundos. Senhor, mais que tudo, permita-lhes não enfrentar, sozinhos, o silêncio, o silêncio iluminado – a sua torre é música só – dai-lhes o mesmo conforto que me carregas vida adentro...


Oração ao vendedor de laranjas lima

Não permita que os afiadores de faca passem, na mesma rua, ao mesmo tempo, que o tapioqueiro, o carrinho de mingau, o verdureiro e o pamonheiro, o bala-de-coquense, o caranguejeiro, o maria-molista, o brigadeirante, e todos estes que tornam-nos doces perante a vida, e repartem as suas famílias.



Oração às cozinheiras

Ouvi as cozinheiras, Senhor, dê-lhes mãos de ouro, só o patrãozinho sabe, doente em seu alarme ultra-violeta, as inquietudes de uma vida, dê-nos o coscorão bem crocante, e os doces no ponto, para que não açucarem como lagos gelados no cio do inverno. Polvilhai de fé as cozinheiras, para que rezem enquanto refogam o passado e o futuro, dai bons frutos aos ajudantes de cozinha, e aos que servem às mesas; não permiti que dividam a comida, patrões e empregados, dai ambrosia a quem tem fome pra que a vida seja melhor, muito melhor. A farinha nossa de cada dia.


À camelô sarará

Negra albina, que recolhe os beijús moles que a chuva, que compra as melhores cicas, que vê na fome do mundo a saciar, que a espera pelo ônibus não seja, tão caborteira e tão longa, nem as notícias em casa difíceis de suportar, que os novos sabores da broa não suplantem, que venham todos comprar desta barraca, estudantes, marreteiros, epicuristas, viajantes, mesmo os ardorosos adoradores de chocolates.
E velhas senhoras sem o dente principal, que não deixem de comprar, ainda que falte dinheiro para cobrir outras despesas essenciais, Senhor, há bocas em casa a alimentar.


***


Oração de Carlito Maia

Amem
amém

Boidivanas, ou a versão do acometido entre a ripa de uma ponte e um carrapato abeijado ao umbigo do boi
Aos boiadeiros vegetarianos

Balangando, balangando,
balangando, balangando,
cá-cá-cá, vêm-vêm-vêm

Pata à frente,
orelha cabana,
o boi, balangando,
(sem pressa) sai da estrada.

Deflora touceira nova,
chifre no formigueiro,
balangando, balangando,
o boi e o rabo do carreiro.

Moscas xucras em vertigo epicurista
enchouriçam a vida do bão boi,
onde rabo de boi não vai
varejam bernes e comichões.

Rebenta a sodade na gente
carrapato viajante-turista,
comida de graça, carona,
balangando, balangando.

Lá vai boi, surtido, amotinado,
ruminando de si pensamentos,
couro encarquilhado,
balangando, balangando.

Través da ponte,
longe o mundo, suas ecologias,
boi é cerca e pastoreio,
rima de massegões.

- Queria ser carrapato, verve
ripa de ponte é conchavo de estrepes!

- Ô carrapato aboiando de gordo!
Ô da malhada vida berrante!
Êta vaca torando de pasto!

Isto é mundão desvario:
boi desestrondado, ameia verdades
empalamado nas gordurezas,
balangando, balangando.

Estorvando-se dos olhos:
vêm, vêm, vêm, cá, cá, cá,
balangando, balangando,
êêê boi, êêê boi.
cá-cá-cá, vêm-vêm-vêm

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O sonho da paineira

"saudade, saudade do ranchinho de sapê,
do rio que passa pertinho do terreiro de café." Piné

Ao Manoelzinho

Sonh’meu cantim verde,
uma duas carijó,
pra acocorar mia saudade.

Carpo dia inteiro,
marmito em sombra paineira,
chão de floquinhos noivados.

Periquitinhos verdes
arreliam meu bolso.
A prima nunca viu travesseiro.

Eu já! Cama de verdade!
Branquinha, linho de Guimarães!
Rendada, periquitinhos verdes!

- O cunhado dormiu-de-rede?
Chegou breu da noite
tropelando as bagunças?

Paina da gente amolece os sonhos,
meu cantim verde, das carijó,
ai que saudade...

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Pitininga

eternavós Edinaccácio


Saudade brejeira
ruas do Império republicano
cheiro a beneficiadora de café...


Árvores-passarinho recortadinhas,
qual jardineiro das rosas
da Santana com nomes da parentaiada


Sem pressa encalço teus sonhos
Pitininga matinê
tardes meninas joga peão


Cozinha quadradinhos de leite
cheira Pitininga e coisinhas afins.
Linguiças do seu Carlos, doces de figo...

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Angélica ou a casa da mulher do macaco

A Fernanda

A casa da mulher do macaco era para os papos,
ouvia-se estórias de comida, comilança,
quando lá se ia pra visitar: gaveta-de-meirelles...


Domingo: dia de sopa,
segunda: milho no cocho,
isto é comida de cavalo!


Terça: dobradinha, do-bra-di-nha!
Quarta a sábado o sem-saboreio:
frango de caldinho e chuchu!


À tia, atriquia: "cousa antiga!" - grita a mulher do macaco,
lá de cima do sótão, comendo os papos dos anjos, contente:
"tuas asas têm pão-de-nelór?" - e se ria, desembestada...


Dessurte um dia a dona da casa e a razão da pilhéria.
A receita dos papos ela nunca deu, e a mulher do macaco,
sem ter o que comer foi pro beleléu...

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II. Voces intimae

Bola gabola

Ao Yuri

Cética,
deitada,
no asfalto rola
a bola gabola.

Zupt e quica o caminhão,
outro e vem,
desastrado,
garrincha pela esquerda.

Deste não escapa – qui-quase!
Em meiar o campo rola,
volta redonda, outra rodada
a bola gabola de esguelha.

(Quem um dia não perdeu a bola gabola?)

Lá de fora,
um menino torcedor
pra bola gabola
safar-se a tempo.

A bola gabola,
sem arbítrio,
desce pro meu cantinho,
vem, vem, vem...

Ao escapulir,
a bola gabola
para a poesia,
concretamente se apagou.


(A bola gabola, namoradinha do Brasil...)

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Pedro, o colecionador de tampinhas

ao Pedro Martins

Pedrinho, tua memória
será beijos e carinhos,
os nomes que te darão;
imitarão tuas palavras, gestos...

Logo, dar-te-ei uma tampinha
e começarás tua primeira coleção;
reunirás tantas tampinhas
os amores de bar consumirem.

Tua embriaguez será o colorido,
as estampas,
atrás da cortiça dos homens,
balcão cortês, chão dos bares.

Embriagar-te-ás
por besouros e borboletas,
farás cirurgias e malvadezas,
mago e anjo!

Deixá-los-ás pelos selos,
caixas-de-fósforos, autógrafos,
garrafinhas e moedas usadas;
teus fósseis e aranhas carnívoras...

Jovem colecionarás cartazes,
mulheres fantasiadas de verão,
decoro de borracharias,
calendários e revistas.

Pedroca, colecionarás paixões,
nomes que galopam no coração,
a barganha de sorrisos e rubores;
não tenhas vergonha, sê colecionado.


Sociedades secretas,
partidos clandestinos,
a arte e política ror progressista,
enroucarás palavras feras contra o Moinho.

Colecionarás criadores e criaturas,
países e livros:
Montaigne, Whitman, Ruskin,
todos os poetas!

Que farás da herança de títulos,
paredes de troféus e medalhas?
Doutor Pedro? Não!
Isto é pra boi da Água Branca!

Em teu currículo
quero sempre:
profissão -
"Colecionador de tampinhas"!

Às autoridades e florestas,
necas de pitibiribas,
glebas devolutas, cargos - na-na-ni-na-não,
sê o mesmo fiel "colecionador de tampinhas"!

Colecionarás filhos,
ser-te-ão raros,
até ébrios como ti,
perderem-se na coleção da vida.

Guardarás teus dias últimos
na vala comum da memória,
homem algum
herda esta coleção.

É, seu Pedro, gente não se coleciona!
Coleção alguma trar-te-ás
mais felicidade que a primeira:
"Pedro, o colecionador de tampinhas"!

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Em casa


Encontro em casa pequenas verdades:
portas de vidro,
mesa posta para o café.

Hoje são os sábios,
em saibros da mesma corda, rebentam-nos:
"faça-se insensato para ser sábio... é loucura".

Em casa aquiesce-se pela paz,
armários trancafiados,
chão bem limpo.

Tapetes na escova
e o banheiro de visita:
toalhas de linho para não se usar.

A mulher intui seu papel:
prorrogar
os repuxos de Conimbriga.

O mal seria um candelabro
lumiar à noite,
cheiro azedo de leite.

Vestes desbotadas.
Ah! Esquecimento...
Bulha doméstica...

Constante-motor das coisas;
bujarrona com os gregos a história
pendeu-se em outroras.

Se não fosse o país tão vasso,
quem ficaria em casa?
Encontro em casa pequenas verdades!

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Meu quintal

À Belita

Meu quintal é um jabuti,
a estrela na testa,
come hibiscos e laranjas,
guincha de alegria, poeta!
Minha estrela é um quintal
de pregadores de madeira
e um vaso de assim-assim.
Meu jabuti é todo alegria,
o mundo o escolheu quintal,
Céu de madeira.
Minha alegria é ver o jabuti,
o quintal nas estrelas do Céu,
os poetas nas goiabeiras
pintando o mundo
das únicas sete cores.
Meu poeta é um quintal de jabutis,
estrela habitada a alegria
de quem pinta os pregadores
na meia-dúzia de sete cores
e dorme no Céu mais perto...

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Os que passam, os que vivem

Ao Pedro, que gosta deste poema

Os que passam, os que vivem
andarilhos do poente.


Desejos envelhecem, sonhos a esquecer,
como se a vida fosse, o que menos a morte.


Pororoc-pororoc,
dias passam em chuva.


Rebentam por um instante, se a vida fosse,
procura os que passam, os que vivem.


Por esta avenida onde todos paulistam,
brejo minhas saudades corriqueiras.


Se o clima agrada e a estrada é boa,
a água, os prazeres, espera.


Homem outro não verá,
rede de dormir, de pescar.


Os que passam, os que vivem,
andarilhos do poente.

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O engenheiro

Ao Renato, engenheiro

Sempre na estaca zero!
Não há mais que dez nortes verdadeiros.


Você, repita-me a tabuada mnemonicamente,
seu laudo técnico comparado ao canto meu.


Ao corrigir o vento e as montanhas,
enquadre a neblina em 1: 2.000.


Soldado para calcular uma estrada,
qual poeta apalavrado.

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Sim

Ao Francisco Vila
Sim, aprendo a pear o computador,
as frases refeitas e grátis,
o automóvel de seis velocidades.


Com o celular,
sou corredor em shopping,
faço a América em cinco dias.


O rádio em notícias é-ô-meu,
sou operador de piercing,
marketing, leasing.


Gerúndio das máquinas,
leio listas telefônicas
e manuais de engenharia.


Felicidade? Por correspondência,
em três lições o diploma,
aprende-se a apoitar o coração.

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Angústia


Angústia e foste debruçar na barra-de-fogo:
rio, ouro, saia;
angústia, macieira, serpente,
qualquer servente vulgar.

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Livro de cabeceira


Livro de cabeceira, por que me olhas enquanto durmo,
e que palavras escolhes para me observar?


A descoberta do mundo? As obras completas?
A lira, a rima, a zanga? Quem melhor as conheceria?

A poeira?

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Cinquenta e oito latifundiários



José, o extremoso, o pai meeiro no eito do Paraíso,
ocaso o terreiro entre a casa e a do outro,
pasta em sossego seu rebanho:
doze boizinhos de cebola.


João, rico d'oito irmãos,
esfrega-se ao chão,
fazendeiro de batatas malungas:
dez reses rechonchudinhas.

Pedro, caçula dos quinze abacates,
maduros e taludos,
bamburrando na terra,
grande o Sertão.

Na Colônia do Piaçú
cinqüenta e oito latifundiários,
rebanhos de toda qualidade e destrozisse,
fazendeirinhos ricos de barriga enxada.

Mães que desta vida-lenha cozinham,
seu tento no contar
o alongo das arrobas de crias,
farinha que a feitoria aparta.

Certo, mesmo, Sertão, poeira e piaçava,
ordenho-te suor abrasado.
...

O rebanho de José arrematado, o do Pedro, o do João.
...

Coçam o cavanhaque, repetindo o espanto do novo rebanho:
doze tratores, aos carreiros o gancho pós invernada,
João, sonhado ser peão - até rima,
José, tratorista, Pedro, praieiro.

Piaçú pequena pros cinqüenta e oito latifundiários.

João constrói usina, meleiro de obra;
José, ascensorista, de bico vende pimenta na praça;
Pedro-prendado, corta cana.

Ricos fazendeiros,
carteira, crachá, participação nos lucros.
No Piaçú engordam boiadas,
abacate, cebola e batata de enfiada.


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III. Palavras tiriricas


Intermitente


Feita a noite, solto o barco e bubuia pelo rio.
Motor arranja preguiça, silêncio arregaça.
Ancho-me proeiro, pouso meus cantos,
orvalho-me em vaga-lumes - preciso-intermitentes.

Rãs, bichos e matas, do norte vento arrepiado.
Tempestade no céu,
cá de cima estrelas,
Nortescuridade-relampejo.

Lua-peixe, pança, quem recebe vaga-lumes,
vento roçando o rio, acera-margens, mapinguari quieto,
capiau acocorado, divulgando solidão, encaiporado
motor rateando, nada.

Lembra Deus e os outros...

O Sertão vem vindo,
ascético,
escuro, reimoso,
Norte-cheirando-a-flor.

Essencial-prenhe, rufiando bom tempo
Lua, correnteza d'água de cima,
cio do mundo, este motor pega.
É navegar, mais bonito não há.

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Juína, a cidade


Seu único banco, um bar,
a máquina anila sorvete,
o refeitório.

Por que novas cidades
se repetem
lojas e cinemas?


Se baleado ao hospital
e não à joalharia?
Por que praças, a poeira?


E cores, ruas descalças,
crianças de arame farpado, rinhas
fuligem de graxa?


Um João do Rio nem sequer
bandas escolares: marchem...


Os alunos no chão,
serrarias à saída,
por onde chegam as famílias!


Se elas se repetem,
em nome do pai, da mãe,
do filho e de todos nós...

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Proaveira, Purus, Juruá


Fogão enfiado, um armário,
duas portinholas, janelas separadas,
dedos do pé encravados, trave-proa.

Quando rio tu rias, Aveiro, curvas não hás,
rombudas
apontar seringueiros e índios pelo nome
e eu mirando os desarrimo...

Nem o trabalho de enterrar,
à noite o primeiro navega.

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Campos de saturno

Homenagem a I. Brodsky
Campos de Saturno,
florestas em Vênus,
ventos para Marte,
meu código remorso.

Olho para o céu
e a terceira dimensão,
paredes em estrela,
intactadas.

Meu mindinho machucado...

Júpiter dorme requentada:
museu de artes!
Nossa Senhora batizada
em banho-Maria!

Recebam minhas preces,
consolo de cometas,
os palácios
em Lua-veneta.

Vega nesga no Céu,
o prazer é meu.
Fachos de luz,
navios visitem-me.

Gambazinho, gambazinho, gambazinho...

Cantem em Eneida maior,
purpurina ao suor das éguas,
meu mindinho machucado
furou o bolo de milho da Dulce.

Anéis de Saturno,
num destes sábado...

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Chegança


Chegaram,
fotografam uiaras e
sacis com flechiláite.


Querem ver macaús, macaús!
Mostro-lhes macacos
e negam, negam...


Amanhã partem para o arquipélago,
aos pássaros,
anotar-lhes a cor, o vôo.


Vence quem mais pássaros vê!

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Solstício


O sol bronze a sereia,
por captivá-la bajo à luz.


Pau-a-pique invertebrado que a alma adelgaça,
sal dos abismos cuj'eternidade não revela.


Verte-se em pedra ou capivara - não há escolha!
Toma-lhe o poder, uníssono e triunfal, dobra-se.

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Caxemira: o Teatro-Caravana

Ao Ulpiano
Na caravana o astracão maior
arrasta o teatro-de-guerra,
balões-bóias no rio, cenários, basiliscos
cariátides, couros pergaminham.


Não há noite sem espetáculo!
Se batalham, cura-se ferimentos;
se viajam: Gilgamesh, Sinbad, Ahmed.
É a vida rios qual ressuscita.


Dominar as língoas, penteados, dísticos,
a história leoa-se: flagelos.
Mais belos fertilúnios:
causos e sementeiras.


Perder a peleja:
fronteiras, rios, fêmeas.
Capar-lhes, melhores os varões,
no tendal atores prisioneiros!


Barregã: desmonte o caravançará, invente os heróis
onde houver tapetes os mármores; jubas as perucas;
Esta noite há espetáculo! Mostrem as língoas
É para eles o espetáculo!

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Noite em Urânia

À Norma

Dou-te a noite doutorinho,
o boi já foi pascer.
O mundo sem vintém.


Hipotecas e letras, enjurei-me.
Estrelas vendi, minha porção da
Lua, da Antártida, da Amazônia...


Meu cavalo preto, esporas-diásporas,
a porteira fechada, tramelas e
ferrolhos, ai da Bodoquena...


Longe Airuoca,
carro-de-boi rançoso,
Rancho Fundo, terra rossa...


Cidades ciladam,
sobram terrenos sem nome,
títulos a vencer, um portador arrependido.


Verti a noite pelo dia e,
quem sabe, a hora em moedas de minutos,
os devedores contam juros em miles bezerros.


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Cavalo, cavalo!

"Pela Arabica lingoa, donde vinhão" Lusíadas I-50-2

Ao Tiguês

Em que montaria vireis, Dom Sebastião,
no luso-fusco ou no mouro-mór?
Tornastes-vos califa ou sempre-rei?
Viestes de longe ou do ar-rabad?
Erraticamente ou em rumo-aprumo?

E ainda sereis rei?
Reis-sóis, mata-moros,
quanto ao cavalo,
prima viola
aremata-lhe as crinas...

Tão o tempo se desfruta - e o vosso, rei?
Passastes por adorno em bibliotecas,
Ainda a História do Futuro
e destas mil e uma noites, quantas vezes
o gênio vos aperreou? Quantas virgens dinazardas,
meretristes, e lamparinas d’óleo?


Fomos às Amazonas, às Taprobanas,
Molucas, Goas, delatamos Calabar, Nzinga,
Faiscamos Tróia e Ítaca, nem sombra de bamburros!
Peruleiros,
Incompletos deixamos padeiros e palafreneiros,
judeus novos e degredados, fabro,

com paparazzi, papa-hóstias e prostitutti colonizamos...

E os vossos ventos-cavalos lusitanos,
a ferro no breu do pescoço,
rompem água dos olhos,
por Xerxes toureiam o mar
na floresta tropical de Aljubarrota.

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Novena



Continuarei vivo após esta novena.
Já são primaveras extensas,
músculos que não ressonam,
palavras sem eco, baleias.


Presteja atenção - vivo
e estarei à Tua espera,
a cada terço imolado,
em todo o quase e ao tão somente.


Pertenço-Te
em Teus melhores momentos: vivo,
sinto-me feio de fé,
percebo-me oco e natal.


Rezarei pelo Teu bilhete premiado,
para o sujeito indefinido,
ao soldado desconhecido,
ao futuro mais-que-perfeito.

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Ex-face


Eu palácio por sonhos abruzzos,
em linhas de maré amontanho-me.
Sou do luar a tarde,
d'eito estrelas ao vento.

Na cal da floresta eu limo;
nem medo de perdição - por testemunha
o Livro dos Provérbios - por asas
as gotas d'água.


No inverno por onde ele escada,
paradeiro algum sobreviverá.

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Paisagem


Deve-se ler da paisagem
por onde entra o Céu.
Ágil a árvore que a luz
entulha do arco-íris.


Deve-se ter da paisagem
a retinta da vida.
Floreios e meneios folgados
no uso de reticências...


Estes modernos caleidoscópios
abaixo do Equador azedos,
tua pele branca e canhota,
paraíso postado de Barleus.


Deve-se escolher na paisagem
o que menos família,
próximo ao primitivo
os olhos tudo paisagem.

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Persequê


Vós catedrais, vós farnéis
por quem construístes distâncias,
relevo obtenho-vos das sombras,
volvo remoinho e pertencer-Vos-ei.


Miséria-pedra trabalha
do amoldar ouvidos,
levo-vos ao berço-manto,
dádiva a destruir.


Viajo finalmente, Vosso o reino,
persequé? persequê? Fadiga e prole:
hei-vos vindo sempre-lume,
vagais tão somente palavras-pome.


Voto-Vos estima, Voltais!

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Ante-sala


A quem anunciar - aguardar por um momento?
Ser breve ou sibilino?


Tropeço no tapete a reclamar o espanto,
sujo paredes com lamúrias.


Imito o pregão do realejo
ou troto com o cavalo a calva luz?


Saio, dente após dente, gaguejando,
estrepitoso e insolente.


Gazeio o burgomestre, o cartorário.
Esquivo-me, com dores, de tão perguntar.


Entre, doutor, espere-me na ante-sala,
repinico: onde estão todos os vivos?

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Reforma


Hospedam-se aos milhares.
A primeira linha é divina,
duvidam dos parques,
e a natureza resigna?


Retinam arcos, colunas, travesseiros,
lonas de massa serestas.
Certos nada perderão - justiça à Lua,
aquário de transbordos secos entre ânforas.


São leis dos homens de gamo,
desuniformes hemos mal predicados;
continuam chegando - para que nada os remansem,
barracas sobre bantos: o nascimento gêmeo.


Criação do acaso em país invadido,
fronteiras que ninguém perambulou,
para que as estrelas lasceem por entre florestas,
rabisquem nos sonhos Peabiru.


A terra não escolhe a herdade,
a reis transmite o privilégio,
indignos acampem por distâncias,
rocem os sonhos prósperos.


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Mascavado


Enquanto o forno assa o pão-de-queijo,
preferes o nosso sinal em cruz,
bolo enfeito açúcar-desejo.


Pranteio a dilapidação das árvores,
galhos noturnos e superiores,
folhas rimadas em arco-íris.


Ousarás sobre nós - Fúria?
Perdição ou o paraíso
sob vigilância?


Reconheço-Te,
em toda a parte,
amargassei...

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Benção

À Leda

Beatíssima bênção,
seraficamente me contemplas,
sacrifico para romper
em doutos milagres.

Unidade desuniforme
passado-mais-que-presente,
cujos anjos esvaecem-se,
glória nas agruras.

Das descobertas,
das fontes,
iam terçados, terços afastados,
nos encaminha.

Das Tuas ordens - desafiam.
Se cingir ao do
espírito nada
nos encontra.

Conhecê-la por
austeridades,
lautos louvores
não nos bastardos.

Transportemo-nos,
réus noutro mundo,
dessemelhantemente,
na Criação - entes.

Revezam-se no altaneiro,
hão de se lhe Aproximar,
crer por olhos indefinitos.
Eu testemunho!


Estupefatos - são os mais fortes,
idéias lasceam-se,
pois asteróides
conviríamo-nos saudar.

Videntes, quem a responderás,
cujam-se mundanas,
se repliquem e
se desaprendam.

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Favelas



Favelas
e aviões ainda te cardam,
nuvens-decalques,
azul paneiro da cidade.


Favelas,
de cima tão úmidas,
cavacos, arranjos,
sempre bastidores.


Favelas,
da oitava maravilha,
sob o mesmo prego,
o cenário de minha cruz.

Pratos, ouros, mulas,
mulatas, o que os euros
agora querem de nós?

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Novidade


Muda-se pro quarto de cima
a heroína.
Todos a conheceram.


Confundem-se-nos os algarismos
e seus confins.
Conto-os anteontem, descuido-me.


Ela chegará, reverenciam-na.
Deus lhe dá tranquilidade,
aqui dorme em manjedoira.


Da sala conversamos baixo,
para ouvir-lhe o estribilho do sono,
sua voz sem molejo cantarolando a manhã.


Quantas vezes quero ser herói?
Não veio o tempo,
nem a vida a apear-me no derredor.


Está em casa a heroína, pagará pensão,
come entre nós, dorme por todos,
e quando se redoma, sorrimos.

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Ao Mocho


Vem, vem sereno,
limpar meus olhos,
cansados de cidade...

Vem, vem, vem,
rã jia,
minha vida invisível...

Feliz nesta mataria,
a Lua só passa a noite
na sua tigela, tão mansinha...

jia, jia, jia...

Noutro dia o leiteiro vai,
derramando a via láctea,
talha d’obras refeitas...

Ah, minha alegria folgazã...

Perfeito sonhador,
de quem tange palavras,
como vacas no seu andor...

Vai o rabo da vaca encilhando
as moedas que a Lua serpentina,
esta manta de sereno carneado...

Tão belo, sereno,
vem só noite grande...
Ver a jia, jia, jia,

até calada dia, dia, dia...

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Embaixador-mó

"Je suis comme le roi d'un pays pluvieux..."
Spleen, C. Baudelaire

Ao Francisco Vila
Retretas da colheita
deixo-me recebê-lo.
Calado me rebanho,
refingidor,
a escutá-lo.

Fala de viagens, de si,
de presentes regalados.
Nada me pede, e aceno:
a cabeça. Trazem-lhe
recompensa, parte.

Afanando-me, suas palavras,
uma a uma, a mulher do dia a comentá-las;
aos bajulos e parentes ociantes
parecem-lhes precisas,
(e minhas reatitudes, louvadas).

Curioso perceber
quão poderoso
rufiando me ilimito,
idéias, levianadas,
meu branco manto brocado de súcias.

De cor fulgoreio seus poemas,
ousamentos, libações,
versões inexploradas.
Ordeno loas aos sacrifícios
crianças, crinas e rapaces.

Provas para novas orgias:
uma cabeça, um souvenir.
Nada mais confortante
a ocupar-me
...até próxima embaixada.

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IV. Poisio

Poisio, logo existo...

Ao Guilherme Romano

Poisio, logo existo...


Há o tempo por vir
ainda há tempo
para escolher o verbo,
ruminador de nossas vidas.


Um poema se conjulga, sempre,
futuro-mais-que-perfeito,
quem poesia alcançará
colher, dormir, palrar.

Passado mais-que-perfeito,
porque nunca passa,
viver é passatempos.


Em São Nunca sempre é hora,
desta vida tudo se leva,
amor-perfeito e rosas.

Aspiro ser pó,
pó de poisio,
poeta sem ode.


Borrego da lã encardida
no lamaçal desbarrado,
poisio.

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Pensamento



O meu pensamento é uma fumacinha
tão esfomeada, coitada,
volteia inútil, sobe à clarabóia
do quarto de Meistres.


Desejo meu,
não se vê saciado.
Minha vida tá brenha,
labareda requeimada.


Santa de casa milagreira,
incensei o perfume dos sensatos.
Pois eu durmo tranqüilo,
minha fumacinha estribilha.


Ah meu sono de sonhador apaixonado...

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Juvência


Cheguem tarde!
Todos poentes depõem tarde!
Derrubem luzes,
escolho dos furores-perfurados!


Cheguem tarde, cansados,
dormindo ódio, seu teto de vôo!
Só-zunido, cheguem tarde!


Usem-se, resumam-se,
Apenas silhuetas!
Cheguem tarde,
pra verem-se a sós!


Atordoem-se!
Tardem-se!
Mequetrefem-se!


Q'a vida a todos penumbra....


Cheguem tarde!

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A solidão



Poderia acompanhá-lo em suas andanças,
escondi-me criança.


Ler não mais,
estradas e índios e mata.


Riem, riam, e eu estaria,
chapéu ao ombro, família.


Imagina-nos juntos?
Intocados pela beleza?


Lei farta ruindo às últimas
Noites contando estrelas...


Sul a norte gaguejando,
desejos - e tristeza?


Veste a peregrina, chão das flores
ainda as domina pelo rabo grande.

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Pitangueiras


Não poderei vender os batidos de bico do tucano
E ninguém quer comprá-los
Nem a noite o tamanduá bufando na janela

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Roça


Quando durmo de bruços as palavras formigam
E caem do estuque do céu como únicos seres animados

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O medo tem pelos grandes, escuros e últimos


Com o medo arremedo
Com o grito me espanto
E se falho a voz me escondo

Toda tarde me espreguiço
E se canto alcanço
E sobressalto
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Da Lua


Todos os poetas, um dia, olham pra Lua
Enxergam-na redonda e apançada,
Pencam-se pelas muralhas a admirá-lhas.

Só da Lua vem aquele brilho falso, perolado,
que as moedas forjam esconder,
que as vírgulas trespassam e nos surrupiam...

Só da Lua tenho saudades, e de mais nada,
A infância deitada, vazia, no sótão, no porão, na memória
Gostaria que você se lembrasse de mim...

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Vergas

Ao Jean Duailibi

Meus poemas tem canteiros e vergas,
Lanternas e aquários.

Passarelas para desfilar, apitos para passarinhos.

Vizinhos repletos de sabedoria, gente, gente muito feliz.
Tenho saudades de mim quando poemo, e penso-me afoito, embalsamando palavras.

Tenho saudades de mim, quando eu era futuro passei o tempo escrevendo
E depois, por que não soube correr...
A estas horas tomam sopa e contam palavras, as letras miúdas, ilegíveis.

Estarás triste, sozinha, e um poema faltará em meu lugar,
Pela janela, estreitando os olhos, o vento percebe o verão.
Ela está triste e o futuro não sabe lhe dizer quando passa.
Quanto tempo para conhecer-te e não saber se é o que me torna sozinho...

Quando tu não estás sinto-me cercado, fico no quarto, a televisão ligada nas duas salas, há gente por toda a casa, um cola e corta, na cozinha outro experimenta seguir, e o telefone toca, tu não retornas,
Eu não sei até quando estarei aqui, estou ocupado em me conhecer.

Procuro afazer-me com livros fáceis, e ele repete o que eu já sabia, tenho pressa e nada consegue me mover.
Não é uma tristeza qualquer, é algo, geral, que me aperta a garganta, que me faz chorar, eu não gostaria de te dizer que parto, pois não tenho as sombras preparadas.
Nem sei se irei embora, parece que tudo o que faço se desmorona
E não alcanço...

Não quero ficar sem ti, não me sinto em casa, minhas coisas estão empilhadas, caixas desmoronam sobre meus sonhos, há pouco encontrei Platonov no mesmo lugar.
E as prateleiras jogadas pela imperícia do carpinteiro.
A quem darei esperanças? A quem me dirijo neste poema? Conto primeiro, o meu desconforto, a minha insegurança?

Queira eu garantir o teu lugar (ao meu lado?)... Talvez, se mudássemos de casa, de cidade,
de rio, de margem de página, de poema para a prosa? Ou se fossemos embora.
As costas viradas para o sol, procurando uma estrada que nos dissesse mais e melhor.

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Nada mais vale

Nada mais vale
Você repete as palavras.
Proibi-las agora...não os fará reagir...

Eles dormem, cada qual procura seu sono.
Dirão que tu foste agressiva, inconveniente.
Ultrapassaste os limites da amizade...

Cada qual irá procurar um caminho.
O encanto inicial desaparece.
- No caos atual você ainda tem tempo para a poesia?

Deveria, como nós, buscar o pão, um emprego...
- Buscar, o que pediram de mim? O que você fará da vida? O que você fez da porca da vida até agora?

Todos os minutos são parecidos e as horas repetitivas.
Vive-se do mesmo jeito.
O tempo que perco ao escrever pode me perder.

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Todopoema


Todopoema é um experimento
Um remendo em forma de cuia

Todopoema é o meu lamento
Remela, bubuia

Sesfrega nas nuvens girinando
Qual andorinha

Paz em mim que não me safo
Há chupins demais

Todo poema é um cimento
em forma de nuvem

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Agora que todo o ouro está na banheira...

Ao Marcos Violante

Agora que todo o ouro está na banheira, uma tigela dourada, quebrada, que brilha pardamente para os passarinhos...
Fico a contar os sabiás, nada me garante tanto prazer como vê-los se banharem...
Será o mesmo, ou um passageiro? Aquele tem os rufos vermelhos!
Volta e meia trato do sabiá como se fosse meu melhor amigo.
Na fila de espera: um sanhaço, duas rolinhas e um outro sabiá mais molhado que o primeiro. O som das asas batendo é mais bonito que seu canto – mostra mais felicidade. O canto pode parecer um pouco triste, banhar-se é sempre uma festa.
Não há sol quente, nem frio, há sempre uma fila na tigela quebrada para o banho tomar.

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Pinguela

Equilíbrio equino
marcha quadripata diferente

Não consegui afazendar-me. Dívidas ou dúvidas de mim. Nenhum de nós: irmãos.

Meia-dúzia de mim são meus
arrobas portam-se

O Parafuso estrondou a antena do telefone – não se fala mais para parte alguma. Nem o rádio pega, êta burro loretado!
Não foi ele, foi o Suíço. Parafuso é mais sestroso, não é de se enrolar em fio de arame do céu...

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V. Mescla


Da floresta

Sou Incapaz de florestas inventar, meu pai errou-me ao perceber
Que sou capaz de poetar por florestas inventar
Mal consegui sair das doenças inventadas por florestas
Para cumprir a pressa que me cerca de erros

Neste momento cento e vinte e duas famílias invadem a Purunga outras cento e seis a Sapucaia e Juruena se transforma em terra sem terra. Vem de Rondônia, onde não se lembram mais das florestas inventadas

Sou incapaz de seguir redividindo, medindo, memorial e planta, sou incapaz de pedir um preço para ressarcir tantos inventos e cercas de anos e erros

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Pela janela ela olha o universo se recolhe


Todas as sombras na verdade têm a verdade têm vontade de ser
Ter vontade de todas
As coisas
Que têm sombras são verdades que
Todos têm
Vontades que
São
A vontade de todas as sombras
É verdade que são sombras
De verdade

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Escondi os livros, tu sabes...


Escondi os livros, tu sabes. Para que não me pudesses ler. Na última visita tu alargaste avenidas tão íntimas, tomou-me dois meses a enxugá-las. E plantei o melhor capim onde havia baralhos, e plantei...

Espero que não te atrases, porque escrevo sempre, e mais, preocupa-me quando não vens. Peço que venhas ainda que por momentos sonoros, avisando a todos da tua chegada. Prefiro-a aqui, ao meu lado, confortando os sonhos que não cabem em minhas lágrimas.

Tu sujas meus versos como se fora livros de ponto, e mais rapidamente percebes que o amor vencerá. “Fatos irreversíveis”, o mundo dos mais próximos... Carrego verbos-trombones, e desde ontem a Páscoa. Tu voltarás e seremos felizes...

Tu e o bilhete. Nem as andorinhas descansam, por que fomos escolhe-la? E tornamo-nos moradores exemplares, distantes e curiosos. Tu dormes cedo, e as estrelas? Hoje é teu aniversário, e o bolo, a cidade, esperam-te.

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Tornaviagem



minha marinha um aquário selvagem

íncubo ou ícone

em fôrma de pássaro tua a lápide alada

quer verde quer sempre

da bússola seguinte

dormir adiante por um pouso melhor

lobisomen alheio aos infortúnios

onde não há lenda paixões desencontradas

tornaviagem sou meu quem seguir-me por diante

será outro e voltará jamais

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Passo por um roceiro...


Passo a passo
por um roceiro.

Mártir
ao tropte cio
na minha aljamia teus ventos ciscam

- Roncinante, o lusiptano
a melhor montaria!

- Bucéfalo, tomo-o por mártir
sofrer é arte!

- Ronho o meu de ca-balé-eiro.

Se o encontro novamente,
Lua, tuas crinas rapadas
grito ao arruamento.

- Dá-m’ a cavalo! Reino meu...

De longe ouço seu golpeio:

- O galo doma a madrugada,
galope poema-freio.

Cabriolé...

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Se fosse um passarinho...

Para Werner Zotz


Se fosse um passarinho
meu ninho verão mamoeiro.
Na grã-mangueira sombras,
na paineira, travesseiros.

A Vinha da minha vida
carreguei-a pro mundo,
ninho de baetas
canto e os chupins apupos.


***

O sol do Levante
(nunca se arredou)
abrasil
messe continuamente.

Torna-se redundante;
- o fato é o mesmo,
a luz multicor
errática e falha.

***


Posso enfeitá-lo
com preces e matas.

Posso enfeitá-lo
com lagoas e rubricas.

Céus e oceanos
Igrejas de prata
peles e puas.

Decorar o país
como poemas.

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Teu mundo


Lembre-se:
sou poeta
suaves gralhas

Arrancam galos do sono
o governo do mundo
trata os inconvenientes

Caem lágrimas
tuas pelo orvalho
Da sabedoria
Do esquecimento

Mundo rotundo
parque de verão
todos os detalhes

Tratam-me como são
pode ser verdade
poder ao valor

Teu mundo:
não há ódio suficiente
para nos derrotar

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Grandes tartarugas


Estou inteiramente disponível
os transformadores recarregam as cidades
onde moram as grandes tartarugas


À noitemente sobrecarregados
por copas carretas teleguiadas
madruga comboios que assustam


Enquanto se dorme a eletricidade
as estrelas candentes admiram antes


Agora é noite elétrica transformadora
Poraquês-caminhões e mais e seus rádios
qual antes as Luas e as cidades madrugagora

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Rádio Sertão

Ao Osmar, e uma homenagem aos radialistas do Pantanal e da Amazônia


Alô Rosanilce... (chiado)
Emprenhou... (chiado)
Carnear... (chiado)
...mandar passar no brete ... As rãs gias...


- Alô ....., alô ......, o Valdo, seu capataz, manda avisar que cumpriu o combinado. Já apanhou a menina Joana. Avisa que ela está presa na lancha, e bem peada. Avisa que desta vez ela não foge;

-Alô Valdo, alô Valdo, o Ormiro, praieiro da Candelária pede pra você tomar tento na pulação de cerca da tua casa....;

- Atenção Ormiro, atenção Ormiro, o Maninho dá o recado que já seguiu a cozinheira pra fazenda. Encarece pra ocê mandar uma canoa muito da reforçada, que a véia é bem rechonchuda;

- Alô Maninho, o Nico, filho da dona Deusa informa que despachou pela lancha o cozinheiro novo. O homem não serviu, era muito dado, e estava causando algazarra na peãozada da frente de serviço, taí de volta, para você acertar as contas;

- Alô Nico, alô Nico, o Chico Lagoa não quer o tourinho amarelo, alega que o tal não é colhudo como ocê disse não, o roncolho tá mais interessado em lamber mão de moleque que fazer o serviço seu dele;

- Alô Chico Lagoa, alô Chico Lagoa, do Retiro Boa Vida, sua mãe morreu. A Zefa pede pra dizer que está tudo bem, pode ficar sossegado, não carece de você vir na carreira não. A Dona Cota está bem enterradinha no jazigo familiar. O resto da família, os vivos sobreviventes mandam lembrança;

(música)

- Atenção seu Benico, atenção seu Benico, o doutor Vaz pede pra lhe dizer que a dama de companhia que o senhor arrumou não serve. A dita é malcriada, ordinária e sem respeito, deu de andar em pelo por aí que nem bicho de criação. O doutor Vaz avisa que acha melhor devolver a moça antes que a dona Leonina tome tento nesta história toda, causando mal arrumação, e lhe dê muito safanão de guaxa;

(música)

- Alô Lázaro, Lázaro do Belenzinho, o doutor Cirso avisa que é para você ressucitar aquela roça de mandioca atrás do brete, com urgência, a patroazinha vai prenha para a fazenda e está mojando de mil vontades;


(música)
- Alô dona Santinha, alô dona Santinha, o seu Bento enjeitou a menina e pede pra senhora receber a sua filha de volta. Ele diz que vai anular o casório. A menina veio sem lacre. Ele invoca que quer o homem do código do consumidor (vê se arranja logo este trem aí na cidade), agradece a festa, avisa que a família é muito educada e simpática, e que o cordeirinho mamão estava muito bão, um pouco menos de sal não lhe faria mal;

(música)

- Atenção dona Querida, alô dona Querida, do Porto Bonito, a dona Santinha pede pra alguém que estiver aí aumentar o volume. Está me ouvindo, dona Querida? A dona Santinha deseja feliz aniversário, que muitos janeiros alegres ainda orne a sua vida;

- Na rádio Sertão sua mensagem chega a qualquer rincão deste Brasil...

(música)

- Alô Zoroastro, alô Zoroastro, o guri Aristóteles, da Fazenda Cordilheira esqueceu-se de deixar ordem expressa para empinar seu papagaio todas as tardes. Faça chuva ou faça sol, o guri está bem, não gosta muito de estudar e os sapatos não lhe fazem bem aos pés.

(música)

- Alô Aristóteles, a Wellingtânia, do Garimpo Planalto envia felicitações ao seu bemzinho e pede pr'ele mandar ligeiro um avião vir buscá-la e às tralhas, que ela tá morrendo de saudade d'ocê. Tá doidinha pra encontrar ocê e mostrar umas artes novas que as meninas do sul lhe ensinaram.

Locutor: ê, lai-ri-lai-rá...

- Alô quem estiver ouvindo, favor fazer contato urgente com o João, do rio Feio, a Maria das Dô manda avisar que o médico fez as apalpações dele e que não é bicho não o que vai nascer, é um machinho, dos gordos, mãe e filho estão os dois bem de saúde, pede para ficar sossegado e ir preparando comida caseira, que ela está morrendo de vontade de voltar pra casa.

- Atenção Marcilei, do retiro Clarão Mineiro, a sua esposa ganhou nenê, é uma robusta e linda menina;

(música)

- Alô Odil, Favor prender o gado gordo, e tocar o gado magro lá pro mato, que eu não quero ver visita conhecendo aquele trem feio...

(música)

- Alô Abigail, leva condução pra pista que tem encomenda...




(música)

- Alô Telêmaco, onde estiver, Telêmaco, onde estiver, sua esposa cansou de te esperar, pede que arrume outra encrenca neste mundão de Deus.

(música)

- Alô mariazinha, eu não segui motivo um festão que vai ter aqui na vila, e tá cheio de muita gente bonita, tudo família de respeito, gente de tradição. Me espera quando as águas baixarem eu me vou...

- Alô Eleosídio, mandar uma tropa reforçada de vinte montarias pro porto, o Lorde Chiquinho vai bem com uma tropa de damas muito apaixonadas.

- Alô Francisco Assis Espírito Santo, o Divino, da Redenção manda avisar que já fez o curativo na Dona ... , a bicheira, Cruz Credo, foi curada, retirou um taludo bicho-berne que estava lá dentro, arruinado, mamando, agora está tudo bem.

- Alô Geraldinho, do Rancho Fundo, a Mariazinha pede para lhe cantar aquele poema que ôce conhece toda noite pra ela antes de deitar. O que fala de goiabada com leite...

- Alô Androlásio, da Fazenda Águas Vivas, a notícia que saiu ontem foi errada, pode trazer aqui a criançada, não é cachaçada, a mulher até acha criança engraçadinho...

Locutor: Rádio, a comunicação amiga.

- Alô Clotildo, Alô Clotildo, DasDô avisa que: tive adoentado, acometido, só deu pra avisar agora - os gansos chineses pretos que o senhor comprou a peso de ouro na primeira chuva ficaram igualzinhos aos do compadre Raul, o senhor foi passado no bico.

- Alô Penha, Alô Penha. Favor mandar carne seca que o Pedrinho tá jururu.

- Alô Firmina, da Curva Grande, é pra você avisar o teu marido que não precisa mais voltar pra fazenda, o patrão mandou ele capar o Belzebu, o cavalo ranheta que ele tinha e não o Zebu, touro importado, de estimação. E ansim, os badulaques dele seguem na primeira condução, o homem está uma fera, que ele nem pense em torar por aqui pra se desculpar. Que fique isto pra outra vida.

- Alô Penha, alô Penha da Esperança, o Zé da Pedra, teu cunhado, pede procê avisar a mulher dele, a DasDô, que ele não volta mais, vai pro Amazonas, pro garimpo, pro raio-que-o-parta; não volta mais, e pronto; disse que não adianta você mandar recado pelo rádio não, que ele não vai ouvir mais rádio não.

Locutor: Rádio, o sertão à sua porta!

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Grandes homens

Ao meu pai

É preciso não perder
tempo tão precioso.
Escolher há tempos:
falta-nos o grande
homem preciso
ao grande cargo
público não há
perdê-lo ao tempo.

Há sempre o lugar
certo suficiente
preenchido pelos
cargos precisos
um pária perfeito
precioso convicto
ambicioso, entendido
nos grandes tempos.

Leitor de revistas
ilustradas, enfim,
um grande homem.
Bons ossos, asseio,
dentes fortes.
É preciso grandeza
nos gestos...Na
dúvida inconstante.

Sempre como homem
útil serviços bons,
boas recomendações,
bons contatos, bons
parentes, úteis
endereços e telefones.
Homem prendado, lidador,
consúltil...

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O Carregador de Pedras

A Maria Júlia, afiilhoa

A filhinha doente ao pai pedia:
traga-me pedrinhas do rio Jordão,
seu jeguinho é tão reinol, meu paipai...

Da janela o mundo pau-a-pique,
às rolinhas caldo-de-feijão:
tragam-me pedrinhas do rio Jordão,
suas asas tão fortes, menininhas...

Da cama de palha-de-milho-pipoca
ao gambazinho lá no forro:
traga-me, também, suas pedrinhas...

Dia após dia, mudamente,
na arca de ouro da marmita: as pedrinhas...

Vôo após vôo, rolamente,
nos remígios: as pedrinhas...

Em volta da casa, um montãozinho de pedras,
uma vereda, uma serrania, uma sombra...

Até chover, e o rio Jordão, bravejando,
escolher a pau-a-pique seu desfiladeiro.

Desperta de um sonho, viu-se curada
da sezão que tanto lhe aturdia.

- Foi saudade do rio, paipai!
- Se foi!

Mas choveu tão forte, dia e noite,
até o gambazinho fugir,
onde as rolinhas? O jeguinho?

A chuva sem pressa arrastou a casa, a arca de ouro,
as veredas e o rio Jordão pra dentro do mar...

__________________________________

Improviso

Ao João Manoel
Inauguramos estradas para ministros,
abrimos vilas para presidentes,
para embaixadores, construimos cidades...

Ipê amarelo em pé. É um castelo?

Bem no meio do mundo, da estrada, do meu caminhão toreiro.
- Vendo bem desta madeira!

As flores amarelas dou pra galeguinha,
espalho o chão o banco secando
formando a casa em seus picos...

Quem cortou meu ipê amarelo?
Está na terra, a madeira sumiu na estrada,
a madeira de quem será? Esqueci de mim...

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Desencontro

Homenagem a K. Kaváfis

Para lhe entregar as chaves
azeitamos as fechaduras
caiamos as árvores do bairro

Marilda foi dispensada,
as irmãs Mattos enviadas à casa da Cotinha,
ao Judi pedimos que caçasse outro jardim para carpir

Mamãe aspergiu água benta até suarem as janelas
o incenso maria-fumaceou os cômodos
ai de mim por qualquer desalinho ou desacato

As rendas sobre as janelas
os guarda-pós asotanados, os redingotes
nunca se vira tanto brilho e esmero

Castramos versos alexandrinhos,
recolheram os sequazes aos seus ornamentos
pusemo-nos a cozer ilhoses

Por três dias ininterruptos não se vendeu pamonha, nem pé-de- moleque para o ar tornar-se mais respirável
e conveniou-se cumprimentar os conhecidos nas ruas por “ô”, “ô”, elevando o tom do “ô” final

Negociou-se com as irmãs de Maria a jogarem fora os pães de Santo Antônio (e as palmas rotas da quaresma trespassada...)

Fomos retreinados a compreender seus tiques e trejeitos
afetamentos e empolações

E pra que tudo isto, se temos hoje 127 canais de televisão?

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Pela Televisão....

Pela televisão soube-se que não virá,
preferiu a recolta (charla) de Cortázar em Ituziangó
(lá pero Plata, onde há história, pero la plata hay).

Quando construíram o lago de espelhos não havia florestas.
Os fetos espalhavam-se dominando a ravina.
A vida esmorecia, farta de si.

Vieram os castelos, as catedrais, os pinheiros e seus séculos
monges e missais, e os serviçais em pencas,
tímbalos e sindicatos, e haveres...

Empréstimos foram tomados,
a floresta semeada de novas espécies;
introduzimos os nossos zéfiros e espantalhos
e a vida graçou solta pelos arredores.

Hoje pratica-se o turismo como religião vã.
As línguas são faladas, melhor, repetidas;
os sinos reboam séculos,
tornamo-nos lacustres em nossos próprios espelhos.

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Seco



Eco, flutuandando, o aquário dorme, desondas, as espumas seriam ilusões.
Sobre a mesa o aquário: intruso, à deriva.
Queiram-me desculpar, peço aos visitantes, não o observem, trata-se de um ensaio mal sucedido, um aquarista amador incapaz de fazer funcionário seu pequeno mundo aquático,
Ainda mais agora, Lisboa não tem mais mar, e recuando na história, ficamos da praia a procurar os abismos.
Os peixes estróficos, minhas algas, aos ouriços-molusculosas, e preguiças-espumas, areias-nadadeiras, tralhotos.
Procuro um oceano que adquira o meu aquário, senão irei desmontá-lo ou transformá-lo num jardim de laranjeiras, enterrando-o no solodo-salobro, em poemas circulares de Tabriz.

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VI. Indefinitos

À Harumi, hai kai

Popular é tudo que eleva o chuchú à categoria de camarão


***

São mais pedras que caminhos

***


As maldades contróem almas salobras


***

Quem aguenta santo é oratório!

***


Mais futuro que o pretérito perfeito


***

Do faiançista de Ourém:


Além Tejo rio Azulejo.


***


A velhas rimam / envelhece riam?


***


Do especialista eremitopófago:


No jardim dos desejos / só percevejos.


***

Na dúvida, renasça.


***

Não tema o amor / o amor é grande o tema.


***

O segredo guarda a dúvida / quem primeiro o contou?

***

Qualquer poema / levará / ao mesmo lugar.


***


A mentira é a mais social das verdades.

***

Todo poema breve por esperar.

***

Conservai o presente como única rotina.

***

O infinito
quando termina
soa a rima

***

Ter
pretérito mais que imperfeito
Ser.

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VII. Quiçá


O quadrado perfeito
Neil Kempf (matemático - séc XVIII)


O Encanto / dos quatro / cantos é o / encontro.


***


Oleiro

Oleiro molenga
binga imaginária força
de forma
o moleiro o
barro rebento.

Suor da face
sopra-lhe a vida.


***


Monologo para dois capitalistas


O excedente, meu amigo, é você!


***


Ouvi ruídos,
automóveis e ventos,
qual deles chegará a tempo?



***

Com quantos tapetes te fazes alfombras?
E quais quebra-luzes surges abajures?
Quem poetas amansam leões ou lestrigões?
De quem os gansos do Capitólio
as borboletas-monarca?



***

Há-de folhas perfeitas.
Enlevou-as colecionando,
cae vento balindo de mim
à mea frente marchand.

***

América: Cinco revistas sobre cães,
duas sobre gatos, três de passarinhos,
uma de peixes branco-e-preto.

***

Lógica do capital celestial:

No paraíso não há pré-juízo!

***

O silêncio é saudade elevada ao infinito.
A saudade é silêncio elevado ao infinito.
O infinito é saudade elevada ao silêncio.

***

Duas velhas esperam um taxi espacial
ou um bonde,
quem sabe pr’onde?
***

As mulheres ciganam lábios-frases
q'a vida concede agora:
já fomos livres e nômades.

***
Pássaro noturno
inseguro tão seu
canto escuro
destoa ralha
estrele céu
voa dia acordálo
***


Entrelinha

Como entretê-la?
A vida
um jogo de
amarelinha!

***

Um cãozinho sofre
foragido
das estrofes latidas.
Derramou-se a via láctea?
O cão dorme,
parapeito às proteções,
o Céu abrigo das crianças,
e os cachorrinhos
expurgados pelo chão.

***

Salvei uma palavra amuada
e quase se me escapa
sem percebê-la.

***

Muito boi que não me escuta,
muito boi altruísta,
deve de ser a orelha penca.

***

Palavras tiriricas,
que o inço sustém,
os versos desvarios,
a rima nos brotou.

***

Toda vida vale
A vida é um vale
Vale de ida

***

Ao telefone

Escovo meus dentes
para falar ao telefone,
minha voz sai melhor.
Eu gosto dela,
ela não gosta de mim,
meu sorriso azul.

***

Classificado

PERDI um amigo domingo
no parque da Aclimação.
Trajava couros almisca
rados. Foi visto última
vez no outono desfolhe
ando poemas de Verlaine.
GRATIFICA - SE BEM.

***


Indulto

A saudade é doença tropical,
vírus, poema de circo, música de realejo,
vem na chuva, perdoa-se no Natal...


***

Picam-me os sonhos
aniversariantes,
com quem venho convivendo,
tropiqueiro, moleque e desacordado,
durmam bem, sonhem por mim...

***

Tão

Tão selvagens,
relva, montanha, mula,
compro-lhes um bardoto;
para reproduzir
a relva, a montanha...



***

Crisálidas ou

Natureza Sábia

Para que as borboletas Para que as lagartas
Não se esqueçam de seu não se olvidem de seu
pretérito mais que perfeito futuro mais que perfeito
lagartas borboletas

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VIII. Noções de geografia

Vermont:

um pinheiro ferido resina,
marimbondos,
besouros, motosserras, semanas...

***
Brasil - um clássico!
Uma saúva pinga-fogo,
cortadeira corre-corre,
pinguela meu sonho
de correição.
***

Tremembé

Aparentemente
parentes
se não eram
aparentavam.

***
Iguaçu

rain
falls
in
love.

**

Cuba libre

Aos balseiros


Never make sugar of hurry cane.

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IX. Epitáfios


Um só umbigo e seria rainha.

***

queria
come morar
todo dia

***


caramujo
velho
marujo

***

Será que o
Cria dor
t a m b é m
cria paz

***


A vida
um poema
ou uma centena

***


Última palavra: espairecéu!

***

Ao natimorto


Antes de nascer já poesia.

***

Onde nasce poema nasce mato.

***

Meu epitáfio

um chafariz

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Epílogo

Alberti, Elytis, Turgueniev, desaparecidos. Pessoa seria um ótimo de rádio, e os jaós continuam assoviando seus milênios, e os sábados, foi sábado passado, as horas contadas às corredeiras; se fossem cachoeiras teriam maior valor comercial

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Notas:

Este livro é uma homenagem a minha mãe, aos meus cinquentanos. Estes poemas recolhi-os, por trinta e tantos anos, brotaram, vivos e eu os penteei. Os primeiros são de 1981, 1982, os últimos, de 2004. Receberam leituras, enxertios, remendos. Deles esbulhei bicheiras, verbos, corós. Não os fiz por merecer. Eles vieram a mim como as ipupiaras da maré lançante. O fato é que não publicava poemas desde “Licença Poética”, Massao Ohno e Maria Lidia Albuquerque Editores, 1982. “Pedro, colecionador de tampinhas” é de 1981 ou 1982, quando Pedro nasceu e convivi com seus pais, Fernando e Jackie, em Londres. “Meu quintal” foi publicado no Suplemento de Domingo do Estadão em 1983. “Estou inteiramente disponível” vem desde junho de 1993. Rádio sertão é de janeiro de 1994. Origina-se numa viagem pelo rio Taquari, afluente do Paraguai, acima, em julho de 1984. “Ode ao sorveteiro” é de janeiro de 1994, catei-o na praia da Enseada, no Guarujá, em São Paulo. “Grandes homens” é também de 1994, de fevereiro. “Quando construiram o lago de espelhos não havia florestas...” é, precisamente, de 31 de agosto de 1997. Deste mesmo ano é “Improviso” e “Desencontro” (de 8 de setembro). “Seco” é de 24 de março de 1998. “Escondi os livros, tu sabes...” é de julho de 2000 e refeito em novembro deste ano. “Da Lua”, de 23 de abril de 2001. “Vergas” é de 10 de setembro de 2001, e depois revisitado no mesmo ano, em 10 de dezembro. “Nada mais vale” é de dezembro de 2001. De 2002 são: “Agora que todo o ouro está na banheira”, de Janeiro, e “Da Floresta”, de 4 de março. “Pitangueiras” é de dezembro de 2003, e resulta de minha última visita a Bonito, Mato Grosso do Sul.

Belém, 7 de março de 2010.

2 comentários:

  1. Caro João, que abriu a porta prá que eu entrasse,

    Um deleite tuas palavras,
    dentre vírgulas esparsas,
    e pontos,
    fica a reticência.

    Adorei os haikai(s)!

    Um beijo tenro e terno!

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  2. Estive já por aqui e cá estou outra vez. Belo espaço para as letras, para a poesia, para o pensamento... para tornarmos mais claros nossos caminhos! Ao mesmo tempo em que te mobilizo para removermos este triste índice de 2 livros/ano por leitor brasileiro (na Argentina são dezoito livros/ano),
    te convido a conhecer meus romances. Em meu blog, três deles estão disponíveis inclusive para serem baixados “de grátis”, em formato PDF.
    Um grande abraço e boa leitura!

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